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[conto] Sanguinária Chapeuzinho Parte 2 (final)


Poder, vingança, solidão, orgulho pesar e lágrimas é o que resta para ela



- Desgraçado! Como pude não perceber desde o início, mesmo estando tão perto?! Mostre sua verdadeira face homem-lobo!
         Sem ter mais como esconder, o jovem que na verdade era o braço direito do líder dos homens-lobo assume sua verdadeira aparência. Porém já não havia muito que fazer, pois o corte recebeu era muito profundo e sangue jorrava incessantemente.
- Argh! Com um golpe desses não me resta mais forças nem para ficar de pé; mas eu já esperava um fim desse tipo... E você Elizabeth, tão linda, mas infelizmente por causa de ambições demoníacas você foi facilmente cega pelo ódio e por terríveis mentiras. Mas logo você saberá de tudo.
         Essas foram as últimas palavras ditas por ele antes que tivesse sua cabeça decepada pela enfurecida assassina de homens-lobo. O colar de presas caninas de Sanguinária Chapeuzinho estava quase completo.
- Agora que só resta o maldito líder, vou colocar um ponto final nisso de uma vez por todas e satisfazer minha vingança!
         Com um único pensamento em mente, ela atravessou toda a floresta para ir de encontro ao líder Fenris Lupan; e levando com ela, a cabeça recém-decepada do leal Tundara Rufus. Em poucos instantes, Sanguinária chegou onde se encontrava sentado, o líder dos Chacais Noturnos
         Um silêncio ensurdecedor tomou conta daquele cenário. Segundos que superavam qualquer eternidade. O derradeiro encontro que não mais podia ser adiado aconteceu. O líder Fenris tinha uma aparência que superava de longe em imponência e poder qualquer um dos seus já mortos semelhantes.
         Antes que alguma palavra pudesse ser dita, ambos lentamente se aproximaram um do outro sem que nem por um segundo deixassem de se olhar; em seguida ficaram parados e Sanguinária com um gesto de desprezo e sarcasmo jogou a cabeça de Tundara Rufus próximo as patas do líder.
         Fenris olhou por um curto instante com uma expressão de pesar. Ao voltar sua visão para Sanguinária Chapeuzinho, essa já estava partindo para cima dele com todas as forças. Só que incrivelmente o líder Fenris não expressou se quer um gesto de resistência. Ficou totalmente estático. Sanguinária parou seu ataque quando sua adaga estava a apenas alguns milímetros da garganta de Fenris:
- Porque você hesitou menina? Não é o que vem fazendo há um pouco mais de dois anos? Não é o que você tanto anseia? Acabar com nossa raça?
         Inquieta com aquela situação, Sanguinária retrucou:
-Eu não entendo! Agora que estou diante de completar meu objetivo... Tão fácil dar um fim na sua vida e por um ponto final nessa história. Tem alguma coisa que não me deixa fazer isso antes que eu confirme uma incerteza. Conte-me o que sabe. Tudo; mas se estiver mentindo eu saberei e aí não terei misericórdia!
         Fenris calmamente se afastou e encostou-se em uma árvore. E, com mais calma ainda ele começou a revelar o verdadeiro passado da caçadora de homens-lobo:
- Escute com atenção e peço que não diga nada até que eu termine de contar tudo. Nenhuma palavra sequer que sairá de minha boca é mentira. Você, Maria Elizabeth é filha Aeon Damarco e Suzana Margareth. Seu pai foi o líder dos Chacais Noturnos antes de mim enquanto sua mãe era uma das poucas bruxas que se tinha conhecimento nessas terras.
         Eles se apaixonaram quando se encontraram pela primeira vez há dezesseis anos. Aqui; na Floresta dos Gritos Perdidos. Naquela época os Chacais Noturnos costumavam ser muito mais violentos do que são agora. Porém graças a sua mãe que fez um acordo com seu pai, Os Chacais Noturnos foram proibidos de tirar a vida de pessoas inocentes e ficaram responsáveis por eliminar todos os indivíduos considerados nocivos para a cidade. Tudo parecia ir bem e não demorou muito para que você nascesse. Com sangue de bruxa e homem-lobo correndo em suas veias, em pouco tempo você se tornaria muito mais poderosa que seus pais. Você era motivo de orgulho para todos nós. Por sua causa, Aeon Damarco se retirou do posto de líder deixando essa responsabilidade para mim e abandonou nosso grupo para viver na cidade junto com você e Margareth. Como uma família normal; e depois disso nós só o víamos nas luas cheias quando ele não podia manter a forma humana e vinha para a floresta. Mesmo vivendo na cidade, ele jamais deixou de ser quem realmente era. Foi um líder incrível.
Mas todos esses momentos felizes vieram abaixo quando você completou um ano. Quando ela apareceu e provocou o massacre no qual até hoje todos acreditam ter sido causado por nós...
         Bem no momento em que Fenris iria dizer o nome da causadora do massacre, ele foi interrompido por uma lança que atravessou seu corpo. Sanguinária estava em choque com tudo o que tinha acabado de ouvir. Tanto que não conseguiu esboçar nenhuma expressão ao ver o líder dos homens-lobo cair inconsciente. Ao perceber a direção de onde lança foi disparada ela vê uma figura jamais vista antes; uma mulher madura, alta, magra, de longos cabelos ruivos e olhos escuros. Usava um comprido vestido preto e sua pele era tão branca que parecia clarear a escuridão da floresta. Estava coberta por uma aura de cor púrpura e com tanta maldade no olhar quanto em sua alma poderia caber. Sanguinária Chapeuzinho com a voz um pouco trêmula, disse em alto tom:
- Não faço a menor idéia de quem seja ou o que pretende aqui, mas é melhor se explicar por que atacou ele!
         A misteriosa e nada amigável figura responde com um brando e sarcástico tom de voz:
- É assim que você se dirige a sua avó que te ama tanto Chapeuzinho... Ou melhor, Maria Elizabeth?
         Não demorou muito para que Sanguinária desse conta do que realmente estava acontecendo ali; Fenris estava para revelar a verdadeira responsável pelo massacre de quinze anos atrás e foi interrompido por aquela mulher que dizia ser a avó dela.
-Vovó? É a senhora? – Indagou a menina ainda com a voz um pouco trêmula – Não entendo... Essa aparência! O que está acontecendo aqui?
- Não se faça de idiota sua pirralha! Você já sabe muito bem o que está acontecendo! Só não quer aceitar isso! E pensar que faltou tão pouco para que meu plano fosse concluído sem que eu precisasse interferir; mas você tinha que amolecer quando estava tão perto de acabar com esse verme. Isso mesmo! Fui eu, a bruxa Madalena quem causou aquele massacre de quinze anos atrás! Meu principal objetivo com isso era dar um fim ao clã dos Chacais Noturnos.
         Quando eu soube que minha filha estava se envolvendo com o antigo líder do clã, fiquei indignada a ponto enlouquecer de ódio. Ao perceber que meus argumentos eram inúteis, tive que recorrer à força bruta para separá-los. Porém, no dia em que fui tirar a vida de Aeon Damarco, minha filha interferiu. Minha própria filha tinha se voltado contra mim para ajudar uma criatura de raça tão desprezível! E por causa disso, o pior aconteceu. Por forças maiores fui obrigada a matar minha querida Margareth...
         Já seu pai Aeon, conseguiu escapar com você e te trouxe aqui para a floresta. Se eu viesse atrás de vocês sozinha, seria certa minha morte, então antes de deixar a cidade, usei um poderoso feitiço de distorção mental; fiz todos acreditarem que os homens-lobo foram os causadores daquela chacina. Mas o preço disso foi caro de mais. Um feitiço tão forte como aquele, me custou anos para recuperar meus poderes de volta. E, foi nesse meio tempo que te encontrei. Foi muita sorte! E com seu poder, que transcende o de um homem-lobo e uma bruxa, me livrar desse bando de feras miseráveis, seria uma questão de tempo. E pensar que para isso só bastou te contar uma mentira e fazer uma carinha triste. Tão poderosa, mas tão ingênua...
         Naquela hora, antes que Madalena pudesse terminar sua revelação, algo estranho aconteceu; uma estranha aura tomou conta de Sanguinária ao mesmo tempo em que seus olhos escureceram totalmente enquanto suas unhas cresceram como garras e brilharam fortemente.
-Você disse que eu tenho o poder que transcende os homens-lobo e bruxas... E se aproveitou desses poderes para objetivos tão egoístas e desumanos... Nem mais uma palavra será dita aqui. Esta floresta vai ser seu túmulo!
         Naquele instante uma batalha insana e épica teve início: magias poderosas e violentos golpes cheios de poder se colidiam, acompanhados de gritos, rugidos e estrondos. Tudo isso fez parte do cenário de um duelo que parecia jamais ter fim. Porém o fim chegou em um último magnífico ataque desferido por Sanguinária que reduziu sua avó bruxa a nada além de cinzas.          Além de muitas feridas e sangue, a vitória dessa batalha caótica custou também para Sanguinária um braço e um coração partido pela dor e remorso.
         Quase sem forças ela tentou ajudar o líder Fenris, mas era inútil. A ferida causada pela lança de Madalena foi fatal. Antes que ele desse seu último suspiro, disse para Chapeuzinho:
- Fico feliz de poder dizer antes de partir que mesmo depois de tudo o que aconteceu, você sempre será parte de nossa família. Você é filha de um grande guerreiro e se tornou uma guerreira extraordinária. E a partir de agora, o único legado dos homens-lobo que restou corre em suas veias; deixe o mundo saber a verdade sobre nós. Deixe o mundo conhecer a nossa história! E assim poderemos descansar em paz. Feito meu último pedido, aqui me despeço. Adeus Maria Elizabeth.
         Naquele momento, estava tudo acabado. Nada mais além de gritos e uivos foram ouvidos na noite banhada pela melancólica chuva e pelas lágrimas de Maria Elizabeth.
         

Não eram gritos de raiva, mas sim de pedido de perdão.

Não eram uivos de uma mulher-loba; mas sim de uma criança clamando de tristeza pela solidão que ela acabara de abraçar. A solidão da última bruxa; da última Chacal Noturna.


[conto] Sanguinária Chapeuzinho - Parte 1

"Esta não é uma história de doces ou travessuras
É uma narrativa de lobos, bruxas e uma assassina de capuz vermelho que busca por vingança. Porém em sua caminhada de incontáveis matanças, ela descobre verdades que vão por em julgamento tudo o que ela acreditou e fez até hoje."



conto de halloween - sanguinária chapeuzinho - dia das bruxas


Parte 1

           Esta é uma história conhecida por poucos. Um conto de lobos, bruxas e uma menina de capuz vermelho que gostava de cantar pela cidade quando estava feliz. E o que a deixava feliz? Ver cair diante de seus olhos, um guerreiro do clã Chacais Noturnos, mergulhado no próprio sangue e sem vida. Conhecida como “Sanguinária Chapeuzinho”, ela decidiu desde seus quatorze anos que dizimaria por completo todo o clã na qual um dia ela pertenceu.

         Isso mesmo! Com apenas um ano de idade ela foi encontrada quase sem vida em uma floresta habitada apenas por homens-lobo. Um pequeno, porém muito poderoso grupo de lobisomens guerreiros, temido e respeitado por todos. Viviam nas sombras da Floresta dos Gritos Perdidos; onde jamais nenhum humano havia posto os pés e tinham a habilidade de assumir a aparência dos homens quando bem quisessem, exceto na lua-cheia, quando o lado mais selvagem aflorava e todos passavam a noite uivando como loucos. Era uma característica deles de demonstrar o quão poderosos eram através do uivo. Contudo, por um motivo ainda desconhecido, em seu décimo quarto ano de vida, Sanguinária Chapeuzinho se rebelou contra o grupo na qual um dia a acolheu e fez uma promessa para o mundo de que não restaria se quer um único homem-lobo.

Dois anos depois da sua declaração de guerra contra os Chacais Noturnos, em sua grande caçada, Sanguinária Chapeuzinho dizimou quase todo o clã, restando apenas o líder Fenris Lupan e seu braço-direito Tundara Rufus. Sanguinária atualmente com apenas dezesseis anos, fazia jus a seu nome por meio de suas ações. Com afiadíssimas adagas escondidas em sua cesta, ela assassinava seus oponentes com os mais violentos requintes de crueldade. Cada morte era uma carnificina. Talvez, por ter sido criada por homens-lobos, Sanguinária Chapeuzinho acabou assumindo características caninas; agilidade, força, intimidação e o principal: instinto. Nenhum dos homens-lobo mortos pôde presenciar o quão ela ficara excitada e eufórica ao deleitar-se com mais uma vítima banhada com o próprio sangue. Cada vítima depois de morta teve suas grandes presas arrancadas no qual passaram a fazer parte de um colar que a mesma exibe com orgulho no pescoço. O que havia começado com apenas um par de presas hoje tinha vinte. Além disso, no final de cada morte, uivos ensandecidos de ódio e prazer ecoavam pelos quatro cantos da Floresta dos Gritos Perdidos. Um fato curioso é que todos os lobos assassinados por sua algoz tentavam desesperadamente dizer algo, porém em vão, pois tão ágeis eram os movimentos da menina quanto os golpes desferidos por suas adagas não dando tempo nem mesmo para serem revidados. Ainda por cima, o primeiro golpe desferido por Sanguinária Chapeuzinho era destinado diretamente à garganta.

Para não causar alvoroço e nem assustar as pessoas na cidade na qual ela atualmente pertencia, Sanguinária assumia um comportamento totalmente diferente: meiga, gentil com todos e bastante prestativa. Sempre exibindo um belo sorriso e cantando nos momentos mais oportunos. Jamais desconfiaram do que realmente ela guardava em sua cesta na qual ela afirmava ter apenas doces e bonecas. A única que sabia de sua real identidade além dos homens-lobo era sua avó materna que vivia em uma pequena e velha casa oculta entre a floresta e a cidade.

- Vovó sou eu! Me deixe entrar!
- Olá minha netinha linda! Seja bem vinda de volta! Faz tempo que não vem me visitar... Sua vovó estava sentindo tanta falta...
- Ah vó, desculpa, mas ultimamente tive muito mais trabalho do que antes.
- Eu sei querida. Mas me diga como anda seu trabalho com os homens-lobo? Cada vez que sai para caçá-los fico tão preocupada! Mal posso esperar pelo dia em que tudo isso irá acabar.

- Eu seu vovó! Mas não se preocupe! Depois de muito tempo fora em minhas caçadas, dei conta de quase todos eles! E agora só restam dois: Aquele líder asqueroso e o braço direito dele. Esses dois vão me dar mais trabalho, mas vou conseguir. É só eu tomar cuidado para não dar de cara com os dois de uma vez.

- Que bom querida. Mesmo que ninguém além de nós duas e aquelas feras abomináveis saibam do seu segredo, pode ter certeza que todos os habitantes da cidade, principalmente aqueles que sobrevieram ao massacre de quinze anos atrás ficarão eternamente agradecidos. Ah, eu posso lembrar como se fosse ontem; tantos corpos, casas e mais casas destruídas, nossa cidade que costumava ser tão linda, reduzida a quase nada além de escombros. E tudo por culpa daqueles malditos monstros selvagens! Fiquei tão desesperada ao ver amigos meus mortos, seus pais nem tiveram chance de gritar. E no fim, você tinha desaparecido sendo tão frágil...

- Não fique lembrando essas coisas ruins vovó! O importante é que eu não morri. Me tornei uma pessoa muito forte e graças aos deuses pude te reencontrar para saber de toda a verdade. Pena que só fui descobrir treze anos depois, que os responsáveis pelo massacre foram justamente aqueles que cuidaram de mim durante minha infância. Só de pensar nisso me dá nojo. Sinto muito ódio deles e por isso não descansarei até que tenha minha vingança completa. Por mim, por meus pais, pela senhora e por todos os habitantes da cidade.

- Querida chapeuzinho. Quando você completar sua missão, me prometa que nunca mais irá empunhar uma arma ou sequer pensar em lutar, para viver junto comigo. Somos a única família que restou uma para a outra!
- Sim vovozinha! Depois que der um fim a todos eles, sei que não precisarei mais derramar sangue de ninguém e poderei ser uma garota normal como as outras. Teremos uma vida muito feliz.

         A conversa entre as duas se estendeu por um longo período. Afinal, fazia tempo que Sanguinária Chapeuzinho não sabia o que era ser tratada como uma doce e meiga criança.

         E, não custou muito para que rapidamente a noite caísse. Avó e neta se despediram com um caloroso abraço e palavras carinhosas. Em seguida a caçadora de homens-lobo partiu em seu caminho. Algum tempo depois, passando em um caminho perto de uma das entradas da Floresta dos Gritos Perdidos, ela ouviu sons de leves passos vindos de dentro da mesma:
- Hum... Não são passos quaisquer. Parecem ser mais leves e como se estivessem usando calçados... Um humano? Impossível!

         Rapidamente ela adentrou através das árvores e logo encontrou o dono dos misteriosos passos:
- É um humano mesmo! O que faz aqui? Sabe que não pode andar nessa floresta! É muito perigosa por causa dos homens-lobo que habitam aqui e...
- Eu sei de tudo isso – disse o jovem com uma voz calma e um olhar penetrante – Mas, mesmo que custe minha vida, preciso que você saiba de uma verdade. Uma verdade que deveria ser contada a você há muito tempo.
         Chapeuzinho sem entender nada, apenas interrompeu:
- Do que você está falando? Não tem nada sobre meu passado que eu não saiba! Agora para de dizer bobagens e vamos sair daqui logo. Se um homem-lobo aparecer, vou ter problemas para enfrentar ele enquanto te protejo...
         Enquanto Chapeuzinho virava as costas, o jovem segurou a garota pelos ombros e olhou dentro dos olhos dela enquanto dizia:
- Hoje conhecida como Sanguinária Chapeuzinho. Mas seu verdadeiro nome é Maria Elizabeth, filha de...

         Antes que o jovem pudesse terminar de proferir mais alguma palavra, ele foi surpreendido por um certeiro e letal golpe de adaga no abdômen. Sanguinária Chapeuzinho tinha percebido algo de muito suspeito, graças a seus aguçados instintos caninos.

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