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[conto] Absinto Vermelho - parte final

contos de terror - contos de vampiros - absinto vermelho



Foi tudo tão rápido que antes de ter tempo de piscar, a garota já não via mais aqueles que seriam responsáveis pelo traumático ato de violação de seu corpo. Em seguida, num inconsciente ato resultante do alívio por ter sido salva, ela foi com braços abertos em direção ao seu desconhecido herói para afagá-lo fortemente como se estivesse agarrando de volta sua própria vida. Ainda que não soubesse nada sobre ele ou nem mesmo sua face ainda tinha visto, ela soltou em uma única frase as palavras de gratidão em um trêmulo e baixo tom:
- Obrigada! Muito obrigada! Não sei quem é e muito menos de onde veio, mas sou grata do fundo do coração por ter salvado minha vida!

Lágrimas descontroladas percorriam seu rosto enquanto ela envolvia em seus braços o corpo do misterioso salvador. Esse por sua vez apenas correspondeu às expressões de agradecimento com um simples afago na nuca da menina. E foi nessa hora que toda aquela sensação de alívio e felicidade desapareceu. Dando lugar a um incompreensível sentimento de medo jamais sentido antes que percorreu todo seu corpo. Aquele gelado toque em sua nuca despertou dentro da menina um temor que esmagava seu coração a cada segundo. “Por que? Porque estou me sentindo assim? Acabei de ser salva, mas comecei a sentir algo muito pior do que antes...”, pensou ela antes de criar coragem para olhar o rosto de seu suposto salvador. Mas tudo ficou terrivelmente claro quando ela voltou seus olhos para o rosto de quem estava abraçando. Uma coisa era certa; não era um homem comum. Seria um homem comum se não fosse por aquele par de perfeitos rubis esculpidos no lugar de seus globos oculares. Tão perfeitos quanto penetrantes; além disso, sua pele era tão alva quanto a neve que vestiam os continentes gelados. As longas madeixas que desabavam pelas suas costas mais pareciam ter vida própria; vermelhas como sangue, cobriam toda a parte de trás do homem como uma capa rubra. E por último ele revelou ser dono de uma voz única: cada palavra proferida de sua boca soava como um prenúncio de morte.

 – Desculpe, mas quando você me ouviu dizer que vim aqui para te salvar? O que eu fiz foi nada além de cuidar da minha presa. Tsc, tsc... Essa tua insistente ingenuidade até me encanta sabia?

Sem condições de fazer nenhuma ação, a garota apenas escutava atemorizada as palavras do misterioso ruivo de olhos vermelhos:

—Consegue escutar esta bela música? É tão linda... Mas, pela sua expressão vejo que não consegue; e mesmo com todo esse terrível silêncio. Posso ouvir tão claramente! Mas porque apenas eu posso escutar? Devo estar ficando louco. Mas mesmo assim, deixe-me compartilhar com você um pouco dessa bela melodia.

Nesse instante, ele aproximou seu rosto ao ouvido da atônita jovem e cantarolou em um tom quase inaudível:
“Quando o homem de cabelos vermelhos chegar
E de seu absinto vermelho provar
Você vai dormir e ele partirá
E quando você sonhar, eu lá estarei
Para sua alma convidar
A caminhar de mãos dadas
No lindo jardim de ninguém...”

Foi a última música que ela escutou. Após o fim da canção, a moça sentiu uma gélida língua deslizar pelo seu pescoço ao mesmo tempo em que sentia o também gélido ar que vinha da respiração do sedento ruivo.
E em seguida, em seu último ato, a jovem loira sem esperanças soltou um suspiro que ecoou pelo vazio silêncio que devorava aquela nuviosa noite; para logo após ter seu desarmado pescoço perfurado por um par de presas que mais pareciam pregos penetrando em um frágil pêssego. Aqueles instantes pareciam ter sido congelados pela eternidade. Ainda podiam ser ouvidos alguns profundos suspiros, mas desta vez não da jovem recém desfalecida; mas do próprio vampiro ruivo que estava entrando em êxtase ao deleitar-se ainda mais com o quente e jovem sabor do “absinto vermelho” de sua presa de cabelos dourados.

Depois de satisfazer naquela noite sua infindável sede, ele partiu. Não da mesma maneira que apareceu em um vulto, mas lentamente; aproveitando cada passo; desfrutando da extasiante sensação que ainda percorria seu corpo e ainda saboreando as últimas gotas do néctar vermelho que tinha extraído da recém-falecida jovem loira. E continuou caminhando em direção ao nada além da escuridão; cantando a mesma melodia até que fizesse parte da própria noite e não mais pudesse ser visto.

“O homem de cabelos vermelhos se foi. Mais uma vez. E agora que você dormiu minha criança, é hora de sonhar para que eu possa lhe levar de mãos dadas para o jardim de ninguém.”

[conto] Os Monstros da Rua Ricchie - Parte Final

Parte Final

Nem mais uma palavra saiu da boca da criança. Naquele instante o que saia era apenas sangue. Porque depois que ele mostrou o inconsciente cãozinho ao senhor no qual ele sem querer tinha esbarrado e começou a contar o ocorrido, foi interrompido por um soco que pareceu ter sido desferido por um pugilista veterano. O garoto foi arremessado no chão; mas mesmo assim ele não soltou o cachorro. Em seguida, outras pessoas se aproximaram para ver o que estava acontecendo. Numa explosão de fúria, o senhor desabou uma tempestade de palavras no ouvido da criança:
― Seu maldito! O que você fez com o pobre cachorro dos Martin! Fazer isso com uma criatura inocente! Não é atoa que você nasceu assim! Um monstro mesmo! Porque logo nossa rua tinha que ser amaldiçoada pela presença de uma criatura perversa e bizarra como você? Hoje você vai pagar pelo que tem nos feito!

         Não tenho nem um pouco de vontade de descrever com detalhes as atrocidades que foram feitas com aquela criança naquele dia. Mas posso dizer a vocês que o fato de ele ter sobrevivido me fez pensar que milagres realmente existem. Podem pensar nas piores humilhações que um menino como ele pode passar e acho que ainda assim não chegarão perto do que realmente o pobre garoto experimentou.
Vários de seus ossos foram quebrados, o corpo ficou coberto por diversas escoriações; o lado esquerdo de seu rosto ficou tão inchado que cobriu boa parte do olho. Sem contar que algumas das pessoas ainda cuspiram nele.

A ferocidade daqueles indivíduos era comparada a de animais selvagens. Homens, mulheres e até mesmo dois adolescentes fizeram parte daquela descontrolada e violenta sessão de tortura. E o mais assustador neles eram os olhares ensandecidos de satisfação enquanto espancavam a criança.

No fim, depois de saciarem sua sádica sede de violência, cada um foi para seu lado. Alguns conversando com outro, alguns em silêncio. Mas todos com largos sorrisos de escárnio pregados no rosto como se tivessem feito sua boa ação do dia. Antes que o menino perdesse a consciência, ainda teve uma última ponta de fôlego dessa vez não para gritar; mas para dizer em um tom tão baixo que apenas os mortos podiam escutar: “Salvem o cachorro...”

menino esquisito, conto de drama, violencia
O cachorro morreu. Morreu por culpa daqueles que acreditam serem os grandes exemplos de pessoas da Rua Ricchie. Pessoas... É difícil se referir a esses indivíduos como pessoas; com um comportamento digno de criaturas irracionais e perversas, o título que cabe a eles com certeza não é o de pessoas. Então me diga: quem são os verdadeiros seres humanos? E quem realmente são os monstros nessa história ridícula?

         
         Após o menino receber alta do hospital, depois de ter passado quatro meses em coma, tendo terríveis sequelas como resultado, mãe e filho se mudaram para outra cidade. Uma pequena cidade totalmente desconhecida e pacata. Aparentemente pacífica. Nessa cidade estava a premissa de que depois de muito sofrimento, a vida daqueles dois seria tranquila. Mas será que naquela pequenina cidade, também não tinha monstros assim como os monstros da Rua Ricchie? 

Fim

[conto] A Última Canção de Halloween - Parte Final


O mundo estava com medo. Não apenas a humanidade, mas todos os seres vivos e a própria terra podia sentir o quão catastrófico era aquele combate; Magias incríveis antes vistas apenas nos mais fantasiosos contos lendas antigas. Mesmo quem estivesse do outro lado do mundo podia presenciar a incrível colisão de feitiços e encantamentos que de longe parecia o mais lindo e grandioso dos espetáculos... Mas para quem testemunhou de perto, a visão era da colisão do céu com o inferno.
No clímax da disputa, os Erradicadores foram, com muito custo, destronados pelos Julgamentos Cerimoniais de Aradia. Como se estivessem ali apenas com o propósito de cumprir uma missão que acabara de ser executada, eles lentamente foram desaparecendo, da mesma forma que apareceram quando foram invocados pela bruxa branca: Tomados por pura energia etérea e desaparecendo aos poucos. Com isso, restaram as personagens principais da decisiva batalha no palco da magia: Lilith e Aradia. O duelo se desenvolvia em um ritmo espantoso.
Tomada por uma fúria cada vez maior, Lilith atacava Aradia com suas magias mais poderosas. Enquanto a Mãe Negra era especialista em arrasadoras magias de ataque, A Grande Bruxa Branca possuía magníficos feitiços de defesa. Porém, como vencer uma luta apenas defendendo? Os Julgamentos Cerimoniais já tinham feito seu papel. E, o encantamento que os convocavam, só podia ser usado uma vez na batalha. E mesmo assim, Aradia sabia que mesmo se pudesse convocá-los novamente, não seria o suficiente para derrotar Lilith. Então ela recorreu ao seu último recurso: A Melodia de Todos os Santos.
Este encantamento era o mais poderoso da Bruxa Branca Aradia. “A magia que aprisiona qualquer ser vivo ou morto, por toda eternidade”. Porém tinha um único e fatal risco. Se Aradia não tivesse poder o suficiente para controlar o encantamento, ela própria poderia ser aprisionada sozinha. E esse era seu maior medo; pois como já tinha usado quase todo seu poder na batalha, esse risco era enorme. Mas, mesmo assim ela estava decidida a executar o encantamento. E assim o fez: “Eu, Aradia, A representante da luz e da magia branca, aquela na qual mais uma vez foi permitida caminhar nessas terras, em nome de todos os que já lutaram e hão de lutar pela luz e por tudo o que é puro, suplico a todas as divindades de todas as eras e dimensões, me concedam o direito de conjurar A Melodia de Todos os Santos!” No momento em que conjurava o encantamento, Lilith tentou parar sua rival mas foi inútil pois ela defendeu habilidosamente todos os ataques.
Segundos após o término do encantamento, mais uma cena extraordinária aconteceu: o céu e o chão se abriram e uma grande onda de energia começou a fluir entre eles. Ao mesmo tempo, iniciou-se uma canção que podia ser ouvida pelos quatro cantos da terra e pelo próprio espaço: Tal canção era composta de versos em línguas jamais escritas ou pronunciadas, mas também possuía sentimentos tão profundos que alcançavam a alma de todos ali presentes.
            E, graças a isso o feitiço pode ser controlado por Aradia. Com uma ajuda que nem mesmo ela esperava receber. Conectados por um sentimento singular de fé e esperança todos os seres vivos, portadores da mais verdadeira pureza vinda do fundo de seus corações, lutaram lado a lado com a rainha da magia branca. Em mente, espírito e coração como um único ser, para finalmente superar o poder de Lilith e assim subjugá-la nos os confins da prisão da eternidade. A guerra acabou.
            E, depois da guerra, nenhuma palavra foi dita. O céu e a terra voltavam aos poucos ao normal; Aradia agradecia a todos que estiveram ao lado dela na batalha; principalmente àqueles que sacrificaram de forma altruísta pelo bem da humanidade. Pelas crianças; por  todos.
            As almas das doces gêmeas Lilian e Julian, não retornaram ao nosso mundo assim como a de muitos outros. Mas, com certeza, todas essas almas agora estão em um lugar mais pacífico; aconchegante. Elas conseguiram a eterna felicidade. Lágrimas de tristeza e felicidade se misturavam entre todos aqueles que sobreviveram àquela batalha de proporções dimensionais. Dentre esses personagens que nada diziam e apenas choravam para demonstrar o quanto tristes e agradecidos estavam, A mãe Beatriz e o pai Walter Wandergrim receberam em especial uma última mensagem de Aradia antes que essa partisse:
“Para que as lágrimas de dor possam ser enxugadas com as mãos do tempo e da superação, deixarei aqui neste lugar já sagrado em nome e em história, para todo sempre, um singelo, porém verdadeiro presente de agradecimento e que por meio deste, jamais seja esquecido que o mundo foi abençoado um dia com a presença de almas tão puras e especiais. Julian e Lilian Wandergrim. E assim me despeço. Que todos vocês sejam abençoados pela magia branca; nessa vida e na outra e na próxima e sempre. Adeus, filhos da luz!”
            E assim ela partiu. Nas brumas e brilhos cintilantes que a trouxeram. E o presente que ela deixou foi uma maravilhosa estátua das irmãs Wandergrim. Uma estátua onde Julian está carinhosamente envolvendo Lilian em seus braços. E com o rosto perto do ouvido; como se estivesse cantando baixinho uma canção de ninar. Uma canção que manda tudo que é mal e aterrorizante para longe. Bem longe... Dizem que depois de muito tempo a estátua permanece lá. Sem nenhum traço de passar do tempo. Como se rejuvenescesse a cada dia e, contam também que no dia de todos os santos, pode-se ouvir claramente ao chegar perto da estátua uma linda e comovente canção. A Última Canção de Halloween.

Fim

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